Na Universidade de Coimbra estuda-se o autismo com recurso a “mini-cérebros”

© DR

As perturbações do espectro do autismo são condições crónicas que afectam uma em cada 68 crianças e representam custos elevados para a sociedade. Para entender melhor estes distúrbios, o acesso ao tecido neuronal dos pacientes é essencial.

Catarina Seabra, investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra (UC), recebeu agora uma bolsa Marie Skłodowska-Curie da Comissão Europeia, no valor de 150 mil euros, para desenvolver “mini-cérebros”, em 3D e de origem humana, que permitam estudar o autismo. A candidatura foi submetida a financiamento pela própria investigadora, em associação com João Peça, o investigador principal do Grupo de Circuitos Neuronais e de Comportamento do CNC.

O estudo de Catarina Seabra deverá ter duração de dois anos, no âmbito do projecto ProTeAN que, liderado pelo investigador João Peça, produz e testa modelos avançados para o estudo de doenças do neurodesenvolvimento, incluindo a motricidade, a manipulação, as competências sensoriais, a comunicação e a linguagem, os comportamentos, as competências cognitivas, os afectos e as emoções. “Esta bolsa, que se inicia em Maio, foi o primeiro financiamento atribuído especificamente para a realização deste projecto e esperamos ter resultados para publicar até ao final do ano”, declara a investigadora.

Os “mini-cérebros” ou, mais exactamente, os organoides cerebrais (que mimetizam o processo de maturação cerebral) terão uma dimensão de quatro milímetros (menos de metade de um centímetro) e serão criados a partir de células estaminais dentárias, presentes em dentes de leite e do siso, provenientes de pacientes com autismo. “Vai ser possível explorar de forma inovadora as características do cérebro de pessoas com autismo, prestando especial atenção às mudanças morfológicas e à comunicação entre neurónios, e compará-las com a organização do cérebro de pessoas saudáveis”, pode ler-se em comunicado da UC.

Ao SUPERNOVA, Catarina Seabra explica que os reagentes químicos necessários para a produção dos organoides cerebrais são caros. “É um processo minucioso e que requer um controlo apertado”, alerta – ressaltando também os custos inerentes à “caracterização dos mini-cérebros com tecnologia de ponta, de sequenciação genómica e electrofisiologia”.

A abordagem apresentada tem a vantagem de, como sublinham os investigadores, obter células através de um processo minimamente invasivo, a recolha de dentes de leite e do siso, “evitando por exemplo o recurso a biópsias”, explica ao SUPERNOVA Catarina Seabra. “Estas células estaminais dentárias têm a capacidade de se transformar diretamente em neurónios, uma vez que têm uma origem embrionária semelhante.”

Além do mais, poderá proporcionar no futuro uma plataforma biomédica e biotecnológica com potencial clínico para medicina ajustada às especificidades de cada doente. Por outro lado, o recurso a organoides cerebrais em laboratório permite a substituição de ensaios convencionais, como, por exemplo, o uso de modelos animais (como ratinhos) – que, segundo a investigadora, nem sempre recapitulam a fisiologia humana, resultando por vezes no insucesso dos ensaios clínicos.

“A longo-prazo, o objectivo deste estudo é sobretudo conhecer e compreender o cérebro com autismo e reconhecer as alterações que nele estão presentes. Poderá ser a nível da forma dos neurónios ou pode ser a nível da comunicação entre neurónios. Os “circuitos” que formam poderão estar desregulados​”, afirma Catarina Seabra. “Só depois de conhecermos bem estas alterações é que poderemos avançar para as terapias.”

Comenta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.