Encontrados ovos de pterossauro com embriões lá dentro

pterossauro descobertaOs paleontólogos Alexander Kellner (do Museu Nacional/UFRJ) e Xaolin Wang (do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia da China) em campo, no momento da descoberta de centenas de ovos e ossos do pterossauro Hamipterus tianshanensis encontrados na região de Hami (China). Fotografia de Alexander Kellner

Foram descobertos na China centenas de ovos de pterossauro, réptil voador que partilhou a Terra com os dinossauros. E alguns tinham embriões lá dentro.

Os pterossauros apareceram na Terra ao mesmo tempo que os dinossauros. E extinguiram-se com eles há cerca de 66 milhões de anos. Agora, foram descobertos, na China, 215 ovos bem preservados, 16 dos quais contêm restos de embriões, que podem ajudar a desvendar um pouco mais sobre a história desses répteis voadores, os primeiros a sobrevoar os céus, muito antes das aves terem levantado voo.

Em 2004, os cientistas confirmaram a suspeita de que os pterossauros punham ovos, tal como a maior parte dos répteis, após a descoberta de três exemplares isolados, um na Argentina e dois outros na China. E foi na China que, dez anos mais tarde, uma equipa de investigadores encontrou dezenas de fósseis de pterossauro, incluindo os primeiros cinco ovos preservados a três dimensões, com 120 milhões de anos. Na altura, a descoberta incluiu também a de uma espécie nova de pterossauro para a ciência, o Hamipterus tianshanensis – um réptil voador que tinha um crânio alongado e dentes pontiagudos para apanhar peixe, ao contrário de outros pterossauros que comiam sementes e insectos.

pterossauro visão artística

Reconstituição em vida de macho, fêmea e filhotes de pterossauro Hamipterus tianshanensis, cuja população foi encontrada na região de Hami (China), contendo ovos, embriões, jovens e adultos numa descoberta inédita para a Paleontologia. Paleoarte de Chuang Zhao

Agora a mesma equipa voltou a encontrar num bloco de arenito na mesma região, em Xianjiang, no noroeste da China, centenas de ovos em excelentes condições, também de Hamipterus tianshanensis. O grande número de ovos encontrados, afastados uns dos outros e com tamanhos variados, indica que foram postos por diferentes fêmeas. “Esta ocorrência sugere criação colonial, como demonstrado pela identificação osteo-histológica [de ossos e tecidos] de indivíduos em diferentes estádios de crescimento, uma hipótese que já tinha sido especulada com base em provas muito limitadas”, refere o artigo científico, publicado recentemente na revista Science. E 16 deles contêm os primeiros embriões de pterossauro tridimensionais. “Pode ser observado conteúdo interno em 42 ovos, seja através de uma tomografia computorizada [uma espécie de radiografia] ou de micropreparação. Destes, 16 tinham restos embrionários”, lê-se ainda.

Os ovos de pterossauro não quebram, mas deformam-se.

Os ovos de pterossauro têm casca fina sem a substancial camada externa de carbonato de cálcio, característica dos ovos de casca dura postos por exemplo por crocodilos e aves. Eram, por isso, moles e flexíveis, como os dos lagartos. E tinham de ser enterrados num substrato húmido para não secarem. “Embora a maior parte dos ovos estejam completos, devem ter ocorrido pequenas fissuras em resultado de decomposição e compressão durante o enterro, porque todos os ovos estão preenchidos com arenito, o que em última análise explica a sua tridimensionalidade”, frisam os investigadores, também no artigo.

A relação do pterossauro com as suas crias

“A principal causa para a acumulação desta incrível qualidade de ovos delicados, com casca suave, bastante rara no registo paleontológico, e que deve ter resultado na sua morte, está relacionado com inundações desencadeadas por tempestades severas sobre ou perto de um local de nidificação”, explica ao SUPERNOVA um dos autores do artigo científico, Alexander Kellner, do Museu Nacional – Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Os rios inundaram e os ovos foram ‘arrancados’ de onde tinham sido postos e concentrados numa área relativamente pequena. Durante esse processo, os embriões não podiam sobreviver.”

Três dos 16 embriões identificados têm ossos de tamanho semelhante e é provável que estivessem no mesmo estádio de desenvolvimento. Para além disso, um dos embriões apresenta uma asa incompleta e ossos cranianos, incluindo o maxilar inferior completo. Mas não foram encontrados dentes. A sua ausência pode ser explicada, de acordo com os cientistas, ou porque os embriões ainda não tinham atingido o estádio em que os dentes eclodem ou porque a eclosão ocorre mais tarde, ao contrário do que acontece com os lagartos e os crocodilos. “Não conhecemos o estádio embrionário exacto, devido ao facto de não existirem séries embrionárias completas para os pterossauros. Mas, com base no padrão de ossificação, argumentamos que os que estamos a estudar devem ter sido embriões num estádio [de desenvolvimento] avançado”, afirma Alexander Kellner.

pterossauro paleoarte

Reconstrução artística da eclosão de um dos ovos do pterossauro Hamipterus tianshanensis. Paleoarte de Maurilio Oliveira

O estudo dos embriões também permitiu perceber que provavelmente os recém-nascidos conseguiam mover-se sem ajuda, mas não seriam ainda capazes de voar, o que sugere que esta espécie de pterossauro pode ter sido menos precoce que os répteis voadores no geral e provavelmente precisaria de algum cuidado parental. “Os ossos [dos embriões] relacionados com o voo estão menos desenvolvidos do que os ossos do membro traseiro”, sublinha o investigador. E foram, aliás, encontrados esqueletos de adultos perto do local onde os ovos estavam enterrados. “A geologia e os fósseis indicam que os pterossauros voltaram para o terreno de nidificação, o que demonstra fidelidade ao ninho.”

Estes novos fósseis, e principalmente os ovos, são um contributo importante para a investigação da estratégia reprodutiva, do desenvolvimento embrionário e do comportamento dos pterossauros, que eram na sua altura os principais predadores dos ares. E réplicas de parte dos achados estão agora expostas no Museu Nacional do Rio de Janeiro. “Pela primeira vez, temos algumas provas directas que nos permitem abordar questões como a nidificação colonial, a fidelidade ao ninho e o desenvolvimento embrionário. 215 ovos, que são muito frágeis, não poderiam ter sido colocados pela mesma fêmea, portanto há mais por descobrir”, frisa Alexander Kellner. “É realmente uma das descobertas mais incríveis em que tive o privilégio de participar, em quase 35 anos de trabalho paleontológico.”

Encontra o artigo científico: X. Wang et alEgg accumulation with 3D embryos provides insight into the life history of a pterosaurScience. Vol. 358, December 1, 2017.

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