Mulher Supernova ♥ Margarida Pestana

Mulheres Supernova — Margarida PestanaIlustração por Daniela Pineu Oliveira e Artur Tavares, do projecto Palavra-padrão (in www.palavrapadrao.com)

As Mulheres Supernova são mulheres portuguesas que desenvolvem actividade nas mais distintas áreas científicas, desde as Ciências Exactas às Ciências Sociais e Humanas. Margarida Pestana é licenciada em Ciências do Desporto pela Faculdade de Motricidade Humana e co-fundadora da Bless Woman, uma agência de marca pessoal exclusiva para mulheres.

Muito tagarela, daquelas alunas que às vezes têm de ouvir um raspanete, seguiu Ciências e Tecnologias no Ensino Secundário porque ia precisar de Matemática A para entrar no curso que já sabia querer frequentar quando a oportunidade de ir para a faculdade chegasse. Licenciada em Ciências do Desporto, com um major em Educação Física e um minor em Treino Desportivo, Margarida fez muita ginástica (metafórica e literalmente) até começar a trabalhar na área da criação e gestão de conteúdos para redes sociais na Bless Woman.

Desde miúda, conta, que “gostava de criar imagens.” Para além de ser apaixonada por fotografia, lembra-se de um programa onde fazia montagens com imagens e texto para partilhar com os seus amigos. Mal sabia que um dia estaria a criar e aprender mais sobre a criação de conteúdo. A trabalhar em casa como freelancer, só se desloca uma vez por semana ao escritório da sua colega de projecto, Susana Rodrigues.

margarida pestana e susana rodrigues

Em casa, tenta que o seu ambiente de trabalho seja o mais descontraído e minimalista possível: de cores claras, velas acesas e música para relaxar. Até porque acredita que, para além da maior responsabilidade que sente em gerir o seu próprio tempo, tem de garantir que as horas a trabalhar são de qualidade e num espaço tranquilo.

É muito importante estar em harmonia, principalmente quando se passam horas em frente ao computador.

Quando estou a trabalhar em casa e não tenho vídeo reuniões, estou de fato treino ou mesmo de pijama.” Para reuniões, confessa que procura vestir-se um pouco mais formal.

O fato treino é, claro, uma segunda pele. A sua vida nem sempre foi assim, na área do marketing digital e a organizar conferências para mulheres. Já faz tempo, mas não se esquece do tempo em em que foi treinadora de ginástica. “Aceitei prontamente uma oportunidade onde precisavam de um treinador adjunto”, explica.“Comecei a minha jornada profissional com 17 anos.” Ginasta desde os cinco anos, foi treinadora durante cinco anos, num clube pequeno, perto da zona em que vivia, que semeou em si “a vontade de crescer e mergulhar em palcos mais ambiciosos.”

À medida que avançava no curso de Ciências do Desporto, ganhava cada vez mais ferramentas e conhecimentos. Mas foi quando deixou o clube pequeno e começou a dar treinos no Grupo Dramático e Sportivo de Cascais que começou realmente a perceber como o que estava a aprender se, aplicado de maneira correcta, podia e muito melhorar a performance das suas atletas. “Nesses três anos trabalhei com pessoas incríveis e super dotadas de experiência e profissionalismo e com ginastas igualmente talentosos que exigiam de mim mais empenho e respostas.”

“Infelizmente ainda há muita gente que não compreende a dedicação e aprendizagem
constante que são necessárias para se ser treinador.”

Margarida explica que muitas pessoas pensam que se ser treinador “é só para ir ao ginásio brincar e fazer pinos e cambalhotas, ficar sentado e mandar umas larachas para o ar mas ser-se um atleta de alto rendimento ou um atleta com seriedade e um treinador a este nível requer horas e horas de treino e de estudo, tendo em conta os objectivos e o próprio atleta.”

“É preciso saber-se que nem todas as “receitas” funcionam de igual forma para todos e é preciso adaptar, reavaliar, prescrever, conhecer-se inteiramente o individuo que está à nossa frente. E repetir tudo isto outra vez, até começarmos a ver os resultados. E sim, às vezes demora anos a acontecer.”

Lembra-se do início da sua estadia no Cascais, num estágio com um treinador búlgaro, o Matei Todorov, e de o observar com os “olhos esbugalhados”“Ele falava de braços de força e movimento, em como aquele exercício feito de uma maneira tinha um resultado e bastando que o inicio da trajectória se desviasse uns meros graus para fora do centro de gravidade todo o exercício sairia de forma diferente. Nunca tinha sentido a biomecânica tão de perto na minha profissão ou talvez nunca lhe tivesse dado tanta importância até àquele momento.”

Conta ainda que, no segundo ano de faculdade, acabou por chumbar a umas quantas disciplinas por não se sentir emocionalmente estável. E, durante o estágio, fez muitos sacrifícios e chegava a casa sempre tardíssimo. Mas acredita que tudo aconteceu por um motivo e que os momentos mais difíceis a ajudaram a crescer.

“Ah, gostava que me tivessem dito que devia ter a experiência de fazer Erasmus”, porque se arrepende de não o ter feito e ainda hoje gostava de ir trabalhar para fora uns meses ou até mesmo um ou dois anos. “Gostava de ter essa experiência do mercado de trabalho estrangeiro e também do que é ser emigrante e viver noutro país.” Mas não na área do desporto. “Com o passar do tempo e também com a idade, percebi que gostava de fazer outras coisas. Que haviam mais coisas que me deixavam tão entusiasmada como um pavilhão cheio de gente e aquela música com dois bips no início a assinalar a entrada da música.”

A vida é isto, caminhar e aprender e quando assim for seguir outros caminhos.

Quando deixou de ser treinadora, começou a dedicar-se à fotografia e ao marketing digital. E está muito feliz, agora que é co-fundadora da Bless Woman, que está a ser uma grande aventura. Diz que quer ao pouco encontrar o seu lugar no mercado, certa de o querer fazer com honestidade.

Margarida defende que não precisamos de saber quem queremos ser de um dia para o outro, que podemos e devemos experimentar fazer e ser muitas coisas. A ginástica será para sempre a sua casa, confessa, mas em Portugal afirma ser difícil. Pelas condições profissionais em que os treinadores actuam, a pressão das medalhas e dos pais e o pouco reconhecimento que existe dos atletas e dos treinadores. “Quem sabe eu possa agora, do outro lado do ecrã, ajudar a aumentar a visibilidade desta modalidade e do trabalho fantástico que se faz cá dentro.” 

Para si, a ciência serve para fazer o melhor pelos outros e acha que se deve investir mais na área do desporto, principalmente nas modalidades ditas amadoras, que fazem aos seus olhos um trabalho meritório e excepcional mesmo em más condições, quer de infraestruturas e materiais quer de recursos humanos. “Precisamos de mais para ouvirmos o hino mais vezes. Não pelas medalhas, mas sim pelos atletas portugueses e pelo desporto em Portugal.” 

Por enquanto, entre o amor ao desporto e o trabalho como freelancer em marketing digital, tenta fotografar, viajar e ir ao cinema. Mas também aproveitar o fim de noite de um jantar com amigos entre um copo de vinha, umas gargalhadas e os pés à lareira. Para uma boa leitura, Teoria e Metodologia do Treino Desportivo, de Tudor O. Bompa, ou o Diz-lhe Que Não, de Helena Magalhães.

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