Os reinos de Whittaker

Os reinos de WhittakerIlustração de Daniela Oliveira e Artur Tavares

O sistema de classificação de seres vivos que actualmente é mais aceite para fins pedagógicos é da autoria do biólogo, botânico e ecologista Robert Whittaker.

Actualmente a classificação dos seres vivos aceite pela comunidade científica internacional é a proposta por Carl R. Woese e colegas em 1990, publicada na PNAS, uma revista científica da especialidade. Contudo, o programa de Biologia do Ensino Secundário destaca a classificação de Whittaker, proposta pela primeira vez em 1969 e modificada em 1979.

O ecologista vegetal Robert Harding Whittaker (1920 – 1980) foi o primeiro a propor a classificação taxonómica dos organismos em cinco reinos, que se distinguem pelo modo de nutrição do ser vivo, pela organização das suas células e pela interacção no ecossistema.

O nível de organização celular diferencia as células procarióticas das eucarióticas e a unicelularidade da multicelularidade. O modo de nutrição o modo como o organismo obtém o alimento (portanto, se é auto ou heterotrófico). As interacções nos ecossistemas dizem respeito às relações alimentares que o organismo estabelece com os restantes organismos no ecossistema (ou seja, se é produtor, consumidor ou ambos e, se consumidor, se é macro ou micro).

Mas porquê cinco reinos?

No século IV a.C., Aristóteles e o seu discípulo Teofrasto agruparam os seres vivos em dois grupos, Animalia e Plantae. Esta classificação tinha em conta a mobilidade e o género de nutrição — os animais apresentam capacidade de locomoção e capturam as suas presas, pelo que dependem da matéria orgânica produzida por outros organismos, e as plantas são imóveis e produzem o seu próprio alimento. Esta ideia foi reforçada no séc. XVIII por C. Linnaeus.

No entanto, os avanços tecnológicos, nomeadamente nos microscópios, permitiram observar organismos até então desconhecidos e, por isso, excluídos do sistema de classificação. Para além de que, à medida que as teorias evolucionistas (como a Teoria da Selecção Natural de Darwin) para os seres vivos surgiam e recebiam aceitação, se levantavam questões sobre a classificação de determinados organismos que, não sendo nem animais nem plantas, pudessem ser seus ancestrais.

Em 1866, surgiu, então, um terceiro reino, proposto pelo naturalista alemão Ernest Haeckel. O Protista incluía os organismos unicelulares e os multicelulares que não apresentassem diferenciação celular, como as bactérias, os protozoários e os fungos. Mas, no séc. XX com o aparecimento do microscópio electrónico e com o avanço de determinadas técnicas bioquímicas, descobriu-se que as bactérias têm características muito distintas dos fungos e dos protozoários.

Herbert Copeland acabou por propor, em 1956, um novo reino, Monera, para separar os seres vivos procariontes (com células sem núcleo individual) de todos os outros. Pouco mais de uma década mais tarde, em 1969, Whittaker propôs um novo sistema, estabelecendo o reino Fungi, onde se incluem todos os fungos. Em 1979, reformulou o seu próprio sistema, tornando-o na Classificação de Whittaker que conhecemos hoje.

Reino Fungi

Ilustração por Kelsey Oseid

Quais são os reinos?
Os reinos de Whittaker: Reino Animalia

Os organismos que pertencem ao reino Animalia são eucariontes (ou eucariotas), multicelulares sem parede celular, heterotróficos e macroconsumidores — ou seja, animais vertebrados e invertebrados.

Os primeiros seres vivos classificados datam de cerca de 540 mil milhões de anos atrás. Das cerca de nove a 10 milhões de espécies animais que se estima existirem, só 800 mil estão identificadas. É plausível considerar que só conhecemos 10% das espécies do planeta, uma vez que a grande maioria vive sob a água.

Os reinos de Whittaker: Reino Plantae

Os organismos que se incluem no reino Plantae são eucariontes com parede celular celulósica e multicelulares com tecidos altamente especializados, autotróficos (através de fotossíntese) e produtores — plantas como fetos e coníferas angiospérmicas.

 

Os reinos de Whittaker: Reino Protista

Os organismos do reino Protista são eucariontes, unicelulares solitários ou em colónia e multicelulares com diferenciação muito reduzida, autotróficos (através de fotossíntese) ou heterotróficos (absorção ou ingestão) e produtores ou consumidores (micro e/ou macro) — como protozoários e algas.

Os protozoários são, na sua maioria, heterotróficos que vivem em ambientes subaquáticos e húmidos. A sua ingestão é intracelular e reproduzem-se de forma assexuada pelo processo de bipartição (quando um indivíduo se divide em dois). Os que se reproduzem de forma sexuada trocam lado a lado o material genético, que guardam antes de se separarem e se dividirem, formando novos indivíduos.

As algas incluídas no reino Protista são seres que formam endossimbiose, um processo que ocorre quando um ser engloba outro numa relação em que ambos saem a ganhar. Uni e pluricelulares, vivem em ambientes aquáticos e fazem fotossíntese.

Os reinos de Whittaker: Reino Monera

O reino Monera abarca os organismos procariontes (ou procariotas), unicelulares (formados por uma única célula com parede celular e, às vezes, envoltos numa cápsula), autotróficos (através de fotossíntese ou quimiossíntese), heterotróficos (absorção ou ingestão) ou saprófitos (decompositores), produtores ou microconsumidores — isto é, bactérias, cianobactérias e arqueobactérias.

Determinadas espécies de bactérias e cianobactérias são responsáveis por causar doenças nos seres humanos e animais, desde pequenas cáries até infecções graves que podem levar à morte — como bacteremia (presença de bactérias na corrente sanguínea) ou bronquite (inflamação nos brônquios, causada por pneumococos).

Os reinos de Whittaker: Reino Fungi

Por fim, o reino Fungi é constituído por todos os organismos eucariontes com uma ou mais células, heterotróficos (por absorção) e microconsumidores — por isso, todos os fungos, como leveduras, bolores e cogumelos.

Os fungos podem ser utilizados na medicina (como base do antibiótico penicilina) e na gastronomia, consumidos como cogumelos ou em pães e bebidas alcoólicas, uma vez que são utilizados para fermentação. Mas também podem causar doenças, como a micose.

Os cogumelos, como seres pluricelulares, apresentam o corpo de frutificação (parte que fica acima do solo). Abaixo do solo, encontram-se as hifas que se fixam na terra como se fossem raízes e que juntas formam o micélio, que desempenha importantes funções como sustentação e absorção de nutrientes.

Recomendo a leitura do Explica-me o que são cogumelos.
Quem fez as ilustrações das princesas dos reinos?

As ilustrações são resultado de um desafio que lancei à Daniela Pineu Oliveira e ao Artur Tavares, do projecto Palavra-padrãoPretendia que ilustrassem um tema ou temas científicos à sua escolha para um artigo que, posteriormente, teria de escrever.

Quando questionada à cerca da razão para ter sido ilustrada a Classificação de Whittaker, Daniela admite que foi difícil chegar lá, uma vez que as primeiras opções que partilhou com o Artur não fizeram click. Optou por isso por confiar na sua área de conforto — padrões, claro.

“Passei algum tempo a procurar padrões relacionados com ciência no Pinterest para me inspirar, e pensei que seria giro incluí-los em vestidos de princesa”, conta. Quando terminou o esboço da primeira ilustração, mostrou à irmã mais nova que lhe disse que fazia lembrar o reino Monera“Ela, que é apaixonada por ciência, lá me esteve a explicar a classificação, e fiquei fascinada!”

Depois da Daniela desenhar, o Artur fica responsável pelo acabamento digital. “Pode parecer simples, mas as cores são pensadas por ele ao pormenor – que tons usar, que tipo de ‘pincel’ [digital]”. O resultado está à vista: uma colecção de princesas coloridas e (literalmente) cheias de vida.

Os reinos de Whittaker

Ilustração de Daniela Oliveira e Artur Tavares

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