Não és tu, sou eu.

fotografia de Christoffer Engström em Unsplash

A,

 

 

Começo por assegurar que estamos bem. Que o meu sentimento não mudou.

Desculpa se te chamei fria. Foram as emoções à flor da pele. (Mas é que às vezes parece que estou a falar com um cubo de gelo, que ficas longe e com a cabeça nas nuvens. Eu sei, eu sei, tens uma rotina dura e repetitiva, mudas de estado com regularidade. Nem sempre te dão valor, deixam-te sozinha e sem atenção – e depois esperam que sejas pau para toda a obra, que apagues todos os fogos.)

Mas eu não. Nunca deixei de me sentir sortuda por te ter. Quer estejas nos teus melhores ou piores dias.

Se te apontam o dedo, salta-me a tampa. Lembra-te do sétimo ano no colégio, quando todos te chamaram de poluída. E eu? Saí em tua defesa. Disse que não. Que era mentira. Que isso era antes. Que agora tinhas subido de nível.

Embora esta não seja uma relação tóxica, tem os seus momentos salgados.

Ajudei-te quando estavas no fundo do poço, aqueci-te no Inverno. (Sabes que tenho um bom interior. Conhece-lo melhor do que qualquer outra pessoa.)

Entende, o problema aqui é que sinto que não é recíproco. E não leves a mal: não és tu – sou eu. (É esta minha comichão de egoísta, este incómodo de ter de te partilhar com ziliões de outras atenções. É inevitável, eu sei, mas na prática é complicado – quando sou tão dependente, quando és o meu primeiro pensamento de manhã e o último antes de me deitar, quando és mais eu do que eu mesma.)

Já te vi em quase todos os estados possíveis. Tens a sabedoria para contornar inúmeros obstáculos, para apaziguar todas as faltas, para estar onde és necessária, para ser oásis depois da tormenta. Descontrolada, furiosa. Amigável, pacífica. [Escrevo isto enquanto olho para uma fotografia nossa, na praia. Como estavas (és) bonita, nesse dia (sempre). Com o Sol a bater, calma, rodeada de um grande grupo de amigos. (Sei que nem sempre aceito quando me convidas para entrar. Que nem sempre tenho coragem, que vai alguém na minha vez – é justo)].

És tão benta, tão santa – mas só Deus sabe os corpos que já viste e provaste, quantas línguas falam os teus lençóis – tecido universal.

Sei que me chamas lamechas e me tocas na cara quando fico sentimental. Mas não deixas nunca que me vá ao fundo, infiltras-te e arranjas forma de lançar esse sorriso – o único capaz de trazer o arco-íris.

Às vezes dizes “Poupa-me, Sónia”. Não directamente, mas dás a entender. E eu tento poupar-te, porque sei que há muitos que não o fazem. (E porque gostava que, um dia, os meus netos te conhecessem e saltassem juntos nas poças, como eu quando era miúda).

Não me leves a mal nem faças uma tempestade no teu copo. Não te vou pedir um tempo. Apenas um espaço. Precisava de exteriorizar isto e até já me sinto melhor. (É que nem quando tomo banho posso estar só comigo.)

E, depois deste texto, não me caias em cima, por favor. É que hoje, como todos os dias, esqueci-me do guarda-chuva.

Aproximadamente 65% tua,

Sónia, d’ A tua (In)Sónia

P.S. Espero que não fiques distante e me obrigues a tratar-te por H2O depois disto. Nunca vamos poder estar longe mais do que umas horas, fico com um vazio e uma sede impossíveis de apagar. Ainda me vêm com merdas de que ninguém é insubstituível. Experimentem lá viver sem ti.

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