Das Ciências da Comunicação ao Jornalismo de Ciência

Ilustração da dupla Palavra-padrão, Daniela Pineu Oliveira e Artur Tavares

Nem sempre quis ser jornalista. Quando era miúda sonhei, durante muito tempo, ser designer de moda. Depois decidi que seria médica, especialista em cirurgia plástica. Sempre gostei tanto de arte como de ciência. E, claro, também sempre gostei muito de letras. Mas quando escolhi línguas e humanidades no secundário, em detrimento de ciências e tecnologias (que até aí pensara ser o caminho a seguir), ainda não sabia verdadeiramente o que quereria ser “quando fosse grande”. Direito foi a primeira hipótese séria, depois Teatro e, por fim, como sempre soube, Ciências da Comunicação. Foi o princípio da aventura.

Penso que sempre foi óbvio uma necessidade quase visceral em mim de ouvir, ler e contar estórias. Desde que me lembro que tenho uma paixão por palavras. Devorei muitos livros durante a minha infância e adolescência, demasiadas vezes (diriam os meus pais) em voz alta. Escrever também sempre me deu prazer. Tenho muitos diários, guardanapos, papéis soltos e folhas digitais para o comprovar. Mas, por outro lado, nunca perdi uma oportunidade para pintar um espaço em branco ou para aprender como funciona um forno solar. Ou para ser teatral acerca de tudo.

Não sei ao certo, por isso, quando pensei cá para mim “quero ser jornalista, é isso que quero para a minha vida”. E, embora acredite veemente que não temos de ser nem nos ocuparmos apenas com ‘uma coisa’ para ‘sempre’, também sei que é exactamente isso que quero para o resto da minha vida. Nunca irei deixar passar oportunidades por não serem o ‘exactamente isso’ que quero, mas sinto-me ‘preenchida’ por saber o que me deixa verdadeiramente feliz. E, por saber qual é o meu lugar no mundo, nunca me vou sentir perdida por mais afastada que esteja do destino final.

Ilustração da dupla Palavra-padrão

Um jornalista tem a responsabilidade de descodificar o mundo.

Assim, decidir tirar uma licenciatura em Ciências da Comunicação não foi um impulso. E nunca sequer duvidei de que ia entrar na minha primeira opção no Ensino Superior. Não fui para um curso de Jornalismo, porque Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa me dava a oportunidade de experimentar outras vertentes da comunicação e de ganhar uma bagagem académica muito maior. Para além de todas as cadeiras relacionadas com jornalismo, também estudei comunicação estratégica, cinema e televisão. Tive uma cadeira sobre tecnologias da imagem e do som que me ensinou imenso sobre lâmpadas e, em última análise, que há coisas que são mais interessantes do que possamos imaginar à primeira.

Penso que um bom jornalista deve ser alguém naturalmente curioso, com ânsias de absorver tudo. E sempre fui intensa a esse ponto, de querer saber tudo, de querer fazer tudo, de não suportar estar quieta. É óbvio que nunca serei capaz de saber nem de fazer tudo, mas gosto genuinamente de aprender e de ensinar. Embora um jornalista não seja um professor, penso que tem a responsabilidade de descodificar o mundo para o público: de explicar o que está a acontecer, como está a acontecer e porquê.

Jornalismo de ciência, o juntar das pontas

O princípio da comunicação de ciência, embora mais abrangente, cruza-se com o do jornalismo: tentar desmontar fenómenos, dá-los a conhecer, mas sobretudo explicá-los. Não foi, por isso, difícil candidatar-me, depois da licenciatura, a um mestrado em Comunicação de Ciência na mesma faculdade. Ainda assim saí da minha zona de conforto. Afinal de contas, não estudei ciências no secundário. Não tive nem biologia, nem matemática nem físico-química. E no mestrado também não aprendi nenhuma dessas disciplinas. Aprendi sim que não existe ciência sem comunicação – e que a comunicação é uma ciência e, na minha opinião, também uma arte.

Escolhi Comunicação de Ciência, em vez de um mestrado relacionado, por exemplo, com cultura ou novos media (duas áreas que também me interessam muito), porque me queria desafiar a mim própria e recuperar a parte científica de mim, que tão presente esteve quando sonhava ser médica. Ou quando fiz, pela primeira vez, um bolo num forno solar. E apaixonei-me por comunicação de ciência, porque aprendi o quão a literacia científica é importante para uma sociedade. E como posso saber mais sobre astronomia, geologia ou medicina se fizer um esforço para perceber e se alguém fizer um esforço para mo explicar. E como perceber sobre determinadas questões científicas é importante para tomarmos melhores decisões, mas também é intelectualmente estimulante e divertido.

Ilustração da dupla Palavra-padrão

Não existe ciência sem comunicação e comunicar é tanto uma ciência como uma arte.

Assim que tive oportunidade de estagiar na secção de ciência de um jornal (podem ver o resultado no meu perfil de autora do Público), não hesitei nem por um segundo. Juntar o meu amor irremediável pelo jornalismo ao meu entusiasmo infantil pela comunicação de ciência foi a decisão mais fácil da minha vida. À falta de espaço para uma verdadeira retrospectiva, não posso deixar de destacar as histórias das técnicas portuguesas para embalsamar cadáveres e para reparar tecidos, dos orangotangos e dos ursos-pardos, do Antropoceno, essa “ciência cósmica mas na Terra”, e de todos os satélites, estrelas, buracos negros, planetas e extraterrestres que me levaram a sonhar com outros mundos e mais alto no nosso. 

Agora, entre escrever um relatório sobre jornalismo de ciência em Portugal e sobre as Ciências do Espaço em particular, mais um estágio profissional numa revista de lifestyle, a única certeza que tenho é que o meu percurso tem sido muito claro, independentemente de ligeiros desvios. O que sonho para mim, daqui para a frente, é continuar a focar-me no destino final (ser jornalista de ciência de pleno direito), enquanto aprecio o caminho até lá – e todos os departamentos de gestão de redes sociais, centros e museus de ciência e revistas de lifestyle e no tanto mais em que tropeçar. Porque não faria sentido de outra forma e porque sei que o que tenho colhido me tem tornado uma pessoa mais rica. Não é isso que é importante?

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Raquel Dias da Silva. Licenciada em Ciências da Comunicação - Área Opcional de Jornalismo e a frequentar o Mestrado em Comunicação de Ciência na FCSH-UNL, gosto de observar, desmontar fenómenos e partilhá-los através de histórias. Apaixonada por jornalismo (sobretudo cultural, ambiental e de ciência), alimento-me do que me faz pensar - teatro, livros e outros quebra-cabeças - e do que me deixa sem palavras - natureza, gastronomia, música e a arte de fotografar.

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