Científica e politicamente incorrecto

Fotografia por Vlad Tchompalov

Uma rookie da Ciência (e, ocasionalmente, da vida no geral) – bonjour, c’est moi! – desafiada por uma querida amiga – a vossa anfitriã Raquel  – a escrever para o seu blogue de comunicação de ciência. Pergunto-me: O que vale mais? Esta relação de longa data ou a minha reputação? Que o facto de estarem a ler este texto vos sirva de resposta.

Saibam que não percebo patavina disto, mas a amizade deve ter uma fórmula química qualquer muito complexa (tal como a minha teimosia) para me obrigar a escrever.

A vossa humilde narradora já quis ser médica (e veterinária, e cavaleira…). It takes a lot of science, I know. Escolhi Ciências e Tecnologias no secundário. Gostei de Geologia. Queria escrever algo sobre a matéria interessante que aprendi (e olhem que até tive 19 no primeiro mini-teste, upa-upa), mas a verdade é que não me lembro de nada. Maldita memória seletiva ou falta dela.

No final do primeiro período, fugi para Humanidades. Uma médica não se podia encolher com sangue nem com equações: não era para mim. O calorzinho aconchegante da História e o conforto da Literatura acolheram-me como velhos amigos, num banquete de notas muito mais saborosas e um festim de aulas bem menos entediantes (desculpa, Física, mas nunca tivemos muita química…).

Bill Nye GIF

Ainda assim, é com carinho que recordo as minhas aulas de Ciências da Natureza. Sei que confundia sempre os genes dominantes com os recessivos, mas afinal de contas não me esqueci que ADN é alcunha para ácido desoxirribonucleico (embora não veja grande utilidade nesta informação, para além de a poder citar em textos como este!).

Também senti as dores de Plutão quando deixou de ser um planeta. E aborreci-me quando me disseram que muitas das estrelas para as quais olhávamos já nem sequer existiam (Oh, bolas! Era por isso que alguns desejos não se realizavam!). Apesar de tudo, aceitei aprender os nomes dos planetas, não fosse correr o risco de apontarem para Júpiter e eu chamar-lhe Tatooine (Star Wars much?). A Rita Lee já me tinha introduzido aos anéis de Saturno, mas saibam que fiquei verdadeiramente infernizada ao saber que nós só tínhamos direito a uma Lua, enquanto os outros têm várias. Dá o Big Bang nozes a quem não tem dentes… Deixem lá, nós temos água! Invejem, seus alienígenas sedentos! Surf na Nazaré, bons robalos… Venham fazer uma visita, que eu estou curiosa. Ofereço o cházinho.

Ancient Aliens GIF by History UK

Aprendi, também, como somos feitos por dentro. E não é que somos todos iguais? (Oh, desculpem lá, racistas e homofóbicos, não vos sabia sequer curiosos da ciência, mas parece que já vos ensinei algo!). Vi os pulmões dos fumadores e jurei nunca me tornar uma. Também percebi, finalmente, a distinção entre o canal por onde sai o xixi e os bebés (digamos assim, okay? Somos pessoas da razão e da ciência, tratamos os pipis pelos nomes).

Ia-me caindo o queixo quando percebi o tamanho do meu fígado (do meu não, calma, de todos). É um passageiro mutante dentro de nós. Devia pagar dois bilhetes.

E as camadas da pele? A crosta, o manto, o núcleo… Ah-Ah, não me subestimem, infelizmente tenho demasiada consciência da superfície do meu corpo. Em especial quando tentam atravessar a minha epiderme com uma agulha! Não me levem a mal, farmacêuticos e grandes cérebros por detrás das curas de todas as maleitas (estou eternamente grata pelo fim da hepatite, da rubéola, do escorbuto e do raquitismo!). Mas já evoluímos tanto que o método podia ser menos chato e doloroso. Digo eu, do cimo da minha mariquice de privilegiada por haver vacinas no ano em que vim ao mundo e por os meus pais terem a cabeça no lugar (o que me possibilitou, para além de inúmeras outras vantagens, não ter de tirar baixa por sarampo por esta altura do ano passado).

Throwing Season 15 GIF

Lembro-me de achar que os outros países eram em cima das nuvens e de me dar uma insónia de náuseas que durou três dias quando descobri que a Terra era redonda e eu estava de cabeça para baixo frequentemente. Ou assim meio de lado, a fazer equilibrismo. Nunca andei em montanhas russas e hey!, afinal sou tão radical quanto o resto da população terráquea.

Também me lembro de me recusar a comer o frango no forno da minha avó porque se falava nas notícias de uns tais nitrofuranos e eu pus na cabeça que era uma espécie de micróbios que nos deixavam com os sintomas da doença das vacas loucas. A ciência pode ser muito confusa para uma criança de seis anos!

Talvez já não seja a pequena inconsequente que se atirou do escorrega em sentido contrário, sem medo do “traumatismo ucraniano”, porque desconhecia uma tal Lei da Gravidade e achava que podia voar (culpa do Harry Potter e da minha mãe, que não me avisou que a vassoura da cozinha não era uma Nimbus 2000…). Mas, algures num cantinho do meu cérebro (ou coração, digam-me vocês qual o responsável), ainda me sinto especial porque já só tenho três dentes do siso a estorvar e li, ou ouvi, algures, que isso é uma evolução da espécie. É mesmo? E também é verídico que daqui a muitos anos caminharemos sem dedos mindinhos? É que esta ideia às vezes ocorre-me antes de adormecer e fico ali numa argumentação-contrargumentação comigo própria sobre a utilidade dos dedos mindinhos que me tira horas de sono. Agradecia o esclarecimento, caros inteirados destes assuntos.

Luke Skywalker No More Questions GIF by Star Wars

Bom, é hora de chegar ao fim de esta amálgama de baboseiras que voluntariamente me propus a escrever. No fundo, quero reforçar que há por aí fantásticos cientistas (e, que bom, uma palavra de género neutro!), tal como equipas que divulgam as suas descobertas valiosas e as traduzem para que analfocienciofabetos curiosos as possam entender!

O meu muito obrigada! Por tudo o que me ensinaram e vão continuar a ensinar, pelos meus rins e amígdalas, pelo meu nariz na primavera, pela minha capacidade de ver minimamente ao longe! Pelos paracetamois e antihistamínicos, pela pílula e pelas pastilhas para a garganta! Uma salva de palmas pelo vosso trabalho e que nunca vos faltem ideias (não se esqueçam daquela da vacina sem agulha. Era a sério. Por favorzinho). U guys rock!

Sinceramente e cientificamente vossa, e dos átomos que compõem o meu eu,

Sónia, d’ A tua (In)Sónia

P.S. Os frangos da minha avó são do campo e alimentados a milho sem OGM. Estou bem e tenho cinco dedos em cada mão!

P.S. OUTRA VEZ Texto sem qualquer revisão científica de qualquer espécie, porque não havia ponta por onde se pegasse mesmo.

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